Cidadão Kane no contexto do cinema nas
primeiras décadas do séc. XX
Autor: Eloir Antônio Oliveira da Silva
O filme é tido por alguns críticos como um dos melhores
da história do cinema. Muito se atribui como novidades
neste filme, como por exemplo; composição, cronologia
não linear, pan-foco, etc. Por outro lado há os que
defendem que o filme tem um destaque maior do que o
merecido, sendo apenas um bom filme com reaproveitamento
de experiências de outros filmes.
Exageros e falsas atribuições já são comuns na
história do cinema. A exemplo temos como inventor do
cinema os irmãos Auguste e Louis Lumiére a 22 de
dezembro de 1895, em Paris, que na verdade é hoje apenas
simbólico, pois historiadores afirmam que em 1893, outros
irmãos; Max e Emile Skladanowsky, na Alemanha, e Jean
Acme Le Roys, nos Estados Unidos, já realizaram sessões
pagas de cinema, e Thomas Edison inventara também dois
anos antes um cinematógrafo individual que era explorado
em salas públicas.
No Brasil também ocorre esses desfechos, pois as cenas da
Bahia da Guanabara filmadas em um domingo, 19 de junho de
1898 por Afonso Segrelo, na realidade não são as
primeiras, pois segundo o pesquisador José Inácio de
Mello e Souza, à 27 de novembro de 1897, Cunha Teles,
médico, advogado e aventureiro, haveria feito um registro
do ancoradouro da Bahia de Guanabara, através do seu
invento "fotografias vivas" no qual tem seu
pedido de patente registrado no arquivo Nacional, com
fotogramas anexados como prova.
Outra pesquisa de Paulo Henrique Ferreira e Vittorio
Capellaro, dão a inauguração do cinema ao italiano
Vittorio de Maio, que teria filmado a chegada de um trem a
Petrópolis em 1897.
Em cidadão Kane (1942), muito já se tinha realizado
antes. A tomada dos lábios na morte de Kane, quando
proferia "Rosebud", já havia sido feita pelo
Dinamarquês Willianson, quando filmou a "A Big
Swallow". O monologo interior já há muito deixara
de ser novidade, pois já havia sido usado no
"Estranho Interlúdio" de Eugene O`Neill, de
1933.
A cronologia não linear, assim como o argumento já havia
sido realizado em 1934 em "O Poder e a Glória",
de Preston Sturger, onde o filme começa numa cerimônia
fúnebre e após fora de cronologia mostra uma figura
controversa. O pan-foco, teto baixo, violentos claros e
escuros de Greg Tolend, já haviam sido experimentados por
ele em filmes de William Willer e John Ford.
A composição tida como a disposição de todos os
elementos retidos pelo enquadramento de tal maneira que
ela reveste uma função expressiva e estética, a
exemplo; quando Suzan tentou envenenar-se, ela em seu
leito na penumbra. Em primeiro plano o corpo e a colher.
Ao fundo, a porta pelo qual Kane surge de tamanho menor
que o copo e tão nítido quanto este, aqui está uma cena
atribuída a barracos como Hitchock, Losey, Bardem e
Ophüls em seus trabalhos, embora Wells tenha feito de
forma magnífica.
Grande parte das cenas imitam o expressionismo Alemão da
fase muda, embora em certas ocasiões em vez de usar as
sombras para tornar o protagonista parte do cenário, usou
luz e sombras para dar o clima dark, o qual desejava.
Não se pode deixar que se negue a genialidade de Welles
mesmo que tenha buscado em outras fontes, pois com certeza
ele as aperfeiçoou. A maquiagem foi excelente, o tema foi
polêmico, pois mostrou-se eleições e a manipulação da
mídia pelo poder, um tema delicado para a década de 40
com seu conservacionismo e tradicionalismo.
O filme começa com a cena de um palácio, onde através
de grades de uma cerca é exibido. Na grade a inicial K é
pendurada, também uma placa de afaste-se.
A câmera vai passeando, atravessando a grade e indo até
a janela. Logo em seguida o que parece ser uma casa no
meio da tempestade de neve revela ser apenas um peso de
papel. A primeira frase é o enigma do filme; Rosebud, que
ao final mostra ser o trenó de infância de Kane. Em
seguida Charles Fostes Kane, que acabou de murmurá-la,
morre. (O detalhe é que ele está sozinho, então quem
soube que ele proferiu rosebud?).
A seguir é apresentado um noticiário de cerca de 10
minutos que conta toda a vida de Kane, explicando como
ele, de menino pobre, passou a ser um dos maiores magnatas
da imprensa americana.
A partir dai o jornalista entrevista cinco pessoas que
participaram dos principais momentos da vida de Kane, e,
em flash-backs não cronológicos, são apresentados esses
momentos.
A variedade de fontes usadas pelo repórter criam um
conjunto de perspectivas diferentes, funcionando como
peças de um quebra-cabeças que os espectadores vão
montando.
O filme faz uso de longas seqüências sem cortes, mostra
tomadas de baixo para cima, distorce as imagens para
aumentar a carga dramática e o foco transita do primeiro
plano para o fundo.
O personagem central vai aos poucos perdendo suas virtudes
e aumentando seus defeitos. Sua trajetória no entanto
encerra muito do sonho americano de idealismo, espírito
de iniciativa, fama, dinheiro, poder e imortalidade.
De 1908 (início da realização de filmes de enredo no
Brasil) à 1942 data da estréia de cidadão Kane, duas
realidades se distinguem; a primeira de um país que
inicia levando filmes a população de classes inferiores
e com uma enorme produção de filmes de boa qualidade, e
por outro lado um país que inicia o cinema dirigido por
classes mais altas, pouca produção e baixa qualidade.
Máximo Barro1, cita que durante a permanência
de Toland no Brasil, fotografando documentários para o
departamento de Estado Americano, supervisionados por John
Ford, enquanto a Atlântida começava a sua primeira
produção; "Moleque Tião". Ambos foram
convidados para inauguração, quando Ford bateu a
primeira claquete e Gregg a segunda. Os dois ficaram
chocados com a precariedade do estúdio.
Anos mais tarde quando Burle foi visitá-lo em Hollywood,
ele duvidou que Moleque Tião tornara-se um clássico do
cinema brasileiro. Modulados por gargalhadas disse que
iria provocar Ford, pois logo após os dois terem
inaugurado as filmagens, o destemperado Ford proferiu em
altas vozes, aos convidados, que a câmera da Atlântida
não seria admitida em Hollywood, nem mesmo na década de
20. Virando-se para Toland acrescentou entre dentes; eu
bati a primeira e você a segunda claquete, mas, estes
incompetentes jamais farão a terceira.
O cinema nacional teve desde cedo a difícil condição em
sua própria casa.
A segunda Guerra Mundial fez um estrago, a indústria
cinematográfica Européia e Brasileira, ficando os
Estados Unidos com a soberania.
Em 1924, dos 1477 filmes submetidos a censura no Rio de
Janeiro, 1268 eram Americanos.
No dia 6 de outubro de 1927, o filme "O Cantor de
Jazz" filme falado usando o sistema de gravações em
discos sincronizados com a projeção, é um grande
sucesso nos Estados Unidos.
Lulu Barros em "Minhas memórias de cineasta"
narra como nasceu o primeiro filme sonoro brasileiro;
* "Um dia encontrando na rua o sr. Bruno [...],
diretor das Empresas Cinematográficas Reunidas, que
estava entusiasmado com o cinema sonoro, que acabava de
chegar; eu lhe disse, confesso que para gozá-lo:
- Ora sr. Bruno, não é só americano que faz filme
falado, eu também vou fazer um.
Ele acreditou e, continuando com seu entusiasmo:
- Vai? Como se chama o filme?
E, para gozá-lo ainda mais, respondi:
- Acabaram-se os otários.
- Eu faço negócio no escuro. Vamos ao escritório.
Fui. Conversa vai, conversa vem, sai de lá com negócio
fechado, e data marcada para a estréia do filme.
Mas como eu ia fazer um filme falado? Não tinha, nem
conhecia as máquinas especiais para esse filme. Que
fazer?"
* Chanchadas e dramalhões - Domingos Demasi.
Lulu de Barros com "Tererê não resolve", de
1938, é o primeiro chanchada nacional.
O critério do jornal "A noite" após assistir
ao que ele chamava "essa coisa gelatinosa e
amorfa", afirma em sua matéria;
"Sai rezando pelo cinema brasileiro"
Inspirando em cidadão Kane e aproveitando-se do sucesso
do seu filme anterior com a exploração do tema da
guerra, "Samba em Berlim" (1943), Lulu Barros
lança 'Berlim na Batucada" (1944).
Com a descoberta da legendagem, ficou mais barato para os
filmes americanos romperem a barreira da linguagem, visto
que a exemplo de Drácula 1931, foram feitas versões em
outros idiomas, inclusive com elenco e equipe técnica
diferentes.
Assim novamente o cinema brasileiro entrou em crise.
Batizado de Sono Filmes, o novo estúdio da Wallace Downey
agora produzia, em sua maioria rápidos, baratos e
populares filmes carnavalescos, com ajuda de Lulu Barros e
Rui Costa, assistente de direção de "Limite"
(1930).
Após "Banana da Terra" (1939), estrelado por
Oscarito, e "Laranja da China" (1940), Douney
fez com Rui Costa "Abacaxi azul" (1944), em
coprodução com a cinédia.
A Atlântida nas décadas de 1940 e 1950 produziu 62
filmes, na maioria chanchadas, bem diferente do que Welles
apresentava em cidadão Kane.
Bibliografia:
- Claude, Robert - Bachy, Victor Tanfour, Bernard -
Panorâmica sobre a sétima arte. Edições Loyola - 1982
- São Paulo.
- Demasi, Domingos - Chanchadas e dramalhões - Edição
funarte - 2001 - Rio de janeiro.
- Cionemaemcasa.com.br/crit_editor_filme.asp?code=298 -
Acessado em 03/08/2006 - 23:00h
- Cine Players.com/critica.php?id=244 - Acessado em
04/08/2006 - 00:10h
- 1- faap.br/revista_faap/revista_facom/artigossexagenário1.htm
- Acessado em 04/08/2006 - 02:34h
- Bilharinho, Guido - Clássicos do cinema mudo. Edição
Triangulino de cultura - 2003 Uberaba/Brasil.